Segunda-feira

É segunda-feira, ele é acordado pela mãe às seis horas da manhã para se arrumar e ir para a escola. O sono é pesado e a cama é como um ímã que o atrai, não o deixando levantar-se facilmente. Culpa da programação da tv no domingo a noite, com o mesmo programa que passa a anos e com o mesmo apresentador que faz lembrar que o fim de semana está terminando. É a depressão do domingo.

Ele finalmente levanta e põe o uniforme da escola. O mesmo tênis surrado de sempre, usa o mesmo até furar, isso acontece com todos que passam pelos seus pés. Vai ao banheiro, joga uma água no rosto, penteia o cabelo na frente do espelho. O cabelo é mais rebelde que ele, o rosto cheio de espinhas e os dentes com aparelho, mas ele não se incomoda com a sua aparência tanto quanto acham que deveria, porque ele vive mais no mundo da fantasia do que na realidade. E lá está tudo ok.

A cabeça vive no mundo da lua e quando se depara com a realidade ele foge para lá novamente. Lá ele acha que é quem realmente é, mas que a realidade não o deixa ser. Um cantor de rock, com presença e estilo, que põem para fora através da música todos os sentimentos que este mundo maluco o faz sentir.

O garoto faz o mesmo caminho de sempre para ir à escola, ele dificilmente muda e quando muda fica no novo caminho por muito tempo. Odeia ter que ir à escola, mas ele chega até ela todos os dias mesmo assim e encontra o seu único e melhor amigo. Os dois têm o mesmo gosto em comum e o ideal também, o resto dos alunos não enxerga a vida do mesmo jeito que eles. São todos fúteis e superficiais na visão dos dois. Os amigos conversam sobre bandas de rock, os clipes de música que passam na tv, sobre filmes e atores. Gostos que ninguém mais da sala de aula tem.

Ele é estranho, mas porque na verdade é tímido. Mas ser tímido em um mundo deste é ser um estranho para as pessoas. Ele não sabe se a sociedade sempre foi assim, mas é assim agora. E um tímido não gosta de chamar a atenção, só que o garoto percebe que não interagir chama mais atenção ainda. Às vezes sente que nasceu na época errada.

E então ele é um aluno quieto, os professores adoram, pois não faz bagunça, mas não é por ser bonzinho e estudioso, não. Ele olha para o professor que explica a matéria, e o professor acha que o garoto está prestando a atenção, mas na verdade o cérebro está no piloto automático. A cabeça dele fica na fantasia, lembra?

Ele é mais de humanas do que exatas, e não entende onde vai precisar usar estas fórmulas de matemática no seu dia-a-dia, ele nem sabe o que está fazendo ali. Acha perda de tempo tudo isso. O que ele quer mesmo é ir para casa, almoçar e ficar na frente da tv esperando o filme da tarde começar. Se o filme não for bom, a tarde não tem graça e espera que o filme do dia seguinte seja melhor para compensar. E a tarefa… Bom, a tarefa ele enrola para fazer até onde pode. Quer escutar música ou até mesmo ler um livro que realmente está interessado, menos fazer a tarefa da escola.

Às vezes durante a aula ele se pega olhando para a porta da sala de aula e imagina sair por ela, entrar num carro, colocar uma música e viajar pelo o mundo afora. E poder passar por uma estrada no deserto na noite estrelada com os cabelos ao vento, sem rumo. Ele quer liberdade, mas quando acorda vê uma lousa escrita com giz, quatro paredes que o prende e uma voz que não para de falar. Está preso ali e pensa que quando acabar a escola estará livre. Não vê a hora de viver seu sonho.

O garoto não sabe, porque ainda é imaturo. A consciência não despertou porque ainda dorme o sono de um adolescente não acordado pelos pais. Mas quando a escola acabar e a consciência despertar ele não estará livre, muito pelo o contrário.

É segunda-feira, ele é acordado pelo despertador às sete horas da manhã para se arrumar e ir para o trabalho. O sono é pesado e a cama é como um ímã que o atrai, não o deixando levantar-se facilmente. Culpa da internet, que o fez perder tempo até tarde da noite, vendo vídeos, memes e as diversas redes sociais que tem para administrar. É a depressão do domingo.

Ele finalmente levanta e põe o uniforme da empresa. O sapato limpo diferente do usado no dia anterior para ninguém achar que é um relaxado. Ele os conserva para durar por bastante tempo. Vai ao banheiro, joga uma água no rosto, nem precisa pentear o cabelo porque está cortado curto. Alguns fios grisalhos começaram aparecer. No rosto algumas linhas de expressão ao redor dos olhos e na testa. Ele se incomoda com a sua aparência, porque ele não vive mais no mundo da fantasia, e sim na realidade. E aqui as pessoas podem ser cruéis.

A cabeça vive quente por causa do trabalho e quando acaba o expediente ele quer ir para casa e nem um outro lugar mais. Ele não tem mais sonhos, se perderam pelo o caminho.

O homem faz o mesmo caminho de sempre para ir ao trabalho, ele dificilmente muda, e quando muda é para ir pagar as contas ou ir no supermercado. Odeia ter que ir ao trabalho, mas ele chega até ele todos os dias mesmo assim, se não desconta do salário. E encontra os seus colegas de trabalho que não suporta. E não encontra ninguém com o mesmo gosto que ele para conversar sobre filmes, livros, séries de tv, música e vídeo game. Os colegas de trabalham só sabem conversar sobre futebol, bebida, e competir quem é melhor que quem.

Ele continua estranho. Mas a cada dia que passa percebe que ele é normal e que estranho são os outros. Mas ele é minoria, então sempre perde.

E então ele é um funcionário quieto, os colegas de trabalho o acham um homem bonzinho, mas ele não é bonzinho, não. Ele olha para o chefe enquanto leva bronca, e o chefe acha que o funcionário está prestando a atenção, mas na verdade ele está imaginando as suas mãos apertando o seu pescoço. A cabeça dele fica quente e o sangue ferve quando isto acontece, mas nem parece. Ele não vive mais na fantasia.

Ele aprendeu a gostar de exatas, e agora entende onde precisa usar estas fórmulas de matemática no seu dia-a-dia. Ele sabe muito bem o porquê está ali, naquele trabalho. Não aproveitou o tempo que tinha para conseguir algo melhor. Mas agora cansado, o que ele quer mesmo é ir para casa, jantar, tomar banho para relaxar e ficar na internet até a hora de dormir chegar. Se não tem conexão wi-fi a noite não foi proveitosa e espera que o dia seguinte isso não volte a acontecer. E o estudo… Bom, o estudo ele ainda enrola.

Às vezes durante o trabalho ele se pega olhando para a porta e imagina sair por ela, entrar num avião e viajar pelo o mundo afora. E poder conhecer culturas diferentes, sem destino certo. Ele quer liberdade, mas quando acorda vê uma mesa cheia de papelada, uma tela de computador, quatro paredes que o prende e silêncio. Está preso ali e pensa que se estudar estará livre. Não vê a hora de viver seu sonho.

O homem agora sabe, porque está maduro. A consciência despertou porque dorme o sono de um homem, acordado pelo o mundo. Mas quando se aposentar e a energia diminuir ele não estará livre, muito pelo o contrário.

Van Carlos

20/02/2017

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